sábado, 17 de julho de 2010

Professores

Acredito que o de mais importante que se pode aprender de uma pessoa inteligente não é, a princípio, o conhecimento que ele tem sobre os assuntos de que gosta de falar; mas sim seu modo de pensar as coisas que pensa. O jeito com que aborda os assuntos, as coisas que se obriga a tentar perceber neles. Quando, por exemplo, João Adolfo Hansen, enquanto expõe um tema de forma mansa, escapa por uma digressão, afirma qualquer coisa e pergunta se aquilo pode ser do jeito que afirmou, geralmente reconsidera e diz: sim, por que não? — e aqui já ensinou algo mais útil a longo prazo do que o conteúdo do curso. Da maneira que vejo, é a procura pelo argumento contrário; procura deliberada pelo que me contradiz. Não é perguntar: "Por que é que o que eu digo está certo?", porque já estamos convencidos e repassar os dados só vai nos persuadir mais. É chamar a certeza na chincha. Equivale a perguntar: "Por que é que outra coisa não está certa, no lugar dessa?".

Hansen não foi exatamente meu professor, mas eu assisti a (parte de) algumas aulas. Em uma delas, ele também contou como desenvolveu um de seus trabalhos, sobre Gregório de Matos. Distante da obra do baiano, percorreu a obra várias vezes garimpando as palavras principais, para depois descobrir o que é que significavam para quem as dizia na época. Remontou assim o universo de pensamento de uma pessoa que morrera há séculos: para determinado poema e determinada expressão, tais e tais significados ficavam excluídos, havia o por que não claro direcionando a análise para a interpretação mais acertada. Isso leva a outra coisa que aprendi além do conteúdo do curso nesse primeiro semestre de Filosofia. Creio que a pergunta que faz a passagem entre o que acabei de dizer e o que pretendo é: por que é que alguém deveria se importar em entender o universo de pensamento de alguém que morreu há séculos?

Mas antes de eu passar à outra ideia, repare em uma coisa: você leu a pergunta anterior e se fez a pergunta ou leu e seguiu adiante? Quero dizer, você tem qualquer resposta para: por que se deve dar atenção ao pensamento velho morto arcaico obsoleto de outras épocas? Nesse outro texto, eu também fiz isso: pedi que o leitor desocupado pensasse algo. Roubei a atitude do professor Moacyr Novaes. Avançando pelo início das Meditações, de Descartes, eis que sugere que façamos a nós mesmos as mesmas perguntas que se colocou o filósofo francês. Para que se saía do piloto automático. Coisas assim: o que seria uma filosofia primeira, um conhecimento do qual dependessem todos os outros? Ou: o que são meditações, que é meditar sobre algo? 

Moacyr executa uma variação do detalhismo do Hansen, se você pensar. Com essas duas últimas questões, não passamos nem à primeira página do livro: ler devagar é outra coisa que se aprende. Pode ser irritante, cansativo e frustante caminhar às vezes frase à frase, parágrafo à parágrafo, mas vê-se o livro encorpar, atingir uma imagem mais completa a cada investida. E cada vez menos entendemos o que o escritor diz pelo que já sabemos e pelo que há no nosso próprio universo de pensamento, e cada vez mais nos aproximamos (talvez) do que ele realmente quis dizer, das consequências, filiações e deficiências do que quis dizer. Estudando a filosofia política de Locke, foi isso que Alberto Ribeiro nos fez notar: em que situação histórica Locke dizia o que dizia? Contra quem ele falava, quais eram seus adversários políticos, quais ideias queria derrubar? 

Dito isso, a ideia que eu me lembrava lá acima retiro do professor Pedro Paulo Pimenta: o que há nos vazios entre épocas, pensadores e ciências? Isto é: de uma ciência a outra, ambas tratando de uma mesmo assunto — assim como o entendimento de um mesmo objeto por épocas e pensadores distintos — há a perda de certa percepção — e o ganho de certa percepção. O significado de avanço aqui fica difuso; o progresso agrega elementos, mas desintegra outras partes. A resposta àquela pergunta passa, portanto, por repelir os adjetivos arcaico velho morto, pois nada em pensamento seria completamente desprezível, sendo todas as coisas em pensamento modos incompletos de perceber. Pedaços de conclusão. Monta-se um quebra-cabeça no fim das contas, avaliando a cada momento os prós e contras. Não existe manual.

São principalmente coisas fáceis de lembrar, posso colocar até de uma forma autoajuda: regra do 'por que não?', regra do 'se colocar a pergunta', regra da leitura lenta (ou cuidadosa), lei do progresso como perda de algo e ganho de outro algo. Coisas que ajudam a escapar do raciocínio próprio, do próprio universo engessado de pensamento. Outras pessoas dirão essas coisas que estou dizendo de outras forma: Terence Mckenna, por exemplo, dirá que a cultura (esse universo que cito) de cada um de nós é um sistema operacional. A metáfora permite dizer: programas não-compatíveis não rodam nesse sistema, não são sequer compreensíveis por ele; isto é, há opiniões ou fatos ou verdades que seriam cifras para você, simplesmente porque você não pode entendê-las.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

A Linguagem Pré-Linguística das Flores

Há um paralelo interessante que se pode fazer entre o Ensaio sobre a Origem das Línguas, de Jean-Jacques Rousseau, e A Brincadeira, romance de Milan Kundera. O filósofo francês, interessado em saber como surgiu a língua e a linguagem, especula sobre o homem em seus primórdios, antes de qualquer convenção, e se convence de que:
"(...) Apesar de serem a linguagem do gesto e a da voz igualmente naturais, a primeira, todavia, parece mais fácil e depende menos de convenções, porquanto um maior número de objetos impressiona antes nossos olhos do que nossos ouvidos, e as figuras apresentam maior variedade do que os sons, mostrando-se também mais expressivas e dizendo mais em menos tempo. O amor, dizem, foi o inventor do desenho; pôde também inventar a palavra, porém com menor felicidade. Pouco satisfeito com ela, despreza-a; possui maneiras mais vivas para se exprimir. Quanto dizia a seu amante aquela que com tanto prazer traçava a sua sombra! Que sons poderia empregar para traduzir esse movimento do braço?" [Ensaio sobre a Origem das Línguas, Capítulo I]
A passagem tem força precisamente pela imagem que cria (algo a que Rousseau levará nossa atenção nos capítulos seguintes do livro); primeiro, faz alusão ao amor, a toda carga afetiva presente na enamorada que se declara ao enamorado. Segundo, a descrição do contornar da sombra é sutilmente poética. Toda a capacidade literária do filósofo seduz nosso entendimento, não? Sentimo-nos dispostos a concordar com a sua proposta de gênese da linguagem. Sem julgar o mérito da tese, avancemos à Kundera. Em A Brincadeira, há outra imagem, de ideia e teoria similar: 
"(...) em cada um de nossos encontros um buquê me esperava, e acabei acostumando-me, porque a espontaneidade do presente me desarmava e porque compreendi que Lucie gostava dessa forma de presentear; sofria talvez com a pobreza de sua eloquência e via nas flores uma maneira de falar; não segundo o pesado simbolismo da antiga linguagem das flores, mas sim num sentido ainda mais arcaico, mais nebuloso, mais instintivo, pré-linguístico; talvez, tendo sempre preferido calar-se em vez de falar, Lucie sonhasse com o tempo em que, não existindo as palavras, as pessoas conversavam por meio de pequenos gestos: com o dedo mostravam uma árvore, riam, tocavam um ao outro..." [A Brincadeira, terceira parte, capítulo 9, grifo nosso]
Há aqui também a sugestão de um estado prévio em que, "não existindo as palavras, as pessoas conversavam por meio de pequenos gestos", e depois segue também a descrição de uma alegria que é simples e bela por esse mesmo motivo. No trecho, a namorada do personagem, Lucie, escolhe um método mudo para expressar sua afeição; não contorna sua sombra, mas lhe entrega flores, sem o simbolismo pesadíssimo e sem levar em conta a convenção social que diz que quem dá flores são os homens. Um expressar de sentido instintivo, nebuloso e arcaico. Porém, Kundera se distancia muito de Rousseau quando diz que Lucie gostava de assim se dizer pois sua eloquência era pobre: para o francês, é precisamente saber ser eloquente o que ela faz.
"(...) se fala aos olhos muito melhor do que aos ouvidos. (...) Compreende-se mesmo que os discursos mais eloquentes são aqueles em que se introduz o maior número de imagens e os sons nunca possuem maior energia do que quando fazem o efeito das cores. (...) Entretanto, a linguagem mais expressiva é aquela em que o sinal diz tudo antes que se fale." [Ensaio sobre a Origem das Línguas, Capítulo I]
Voltando à Kundera, vê-se em uma, por assim dizer, insignificância do cotidiano, a potência máxima de expressividade, resquício da língua original nos dias degradados de hoje. Em outro momento, o romancista tcheco vai destacar o irrelevante na relação amorosa: "Os momentos decisivos na evolução do amor nem sempre procedem de acontecimentos dramáticos, muitas vezes são decorrentes de circunstâncias que são à primeira vista perfeitamente insignificantes". E isso talvez seja porque compõem imagens que dizem muito mais do que qualquer eu te amo seria capaz de dizer.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Notas do "Ensaio sobre a Origem das Línguas"

Lourival Gomes Machado, que fez notas para o Ensaio sobre a Origem das Línguas, de Jean-Jacques Rousseau, a certa altura, nos deixa de sobreaviso sobre a tolice do filósofo francês. Na edição de Os Pensadores (1999), na nota 3, página 263, ela diz: "Concluindo anteriores desenvolvimentos, aqui se rejeita em definitivo qualquer explicação meramente fisiológica da comunicação pela linguagem. Assim se afirma a origem social da linguagem, tal como hoje a aceitam a psicologia e a sociologia atuais. Embora se sigam, na passagem, alguns equívocos de ordem zoológica, não chegam eles a invalidar a afirmação básica — "a língua de convenção só pertence ao homem". Antes que eu siga em frente, considere essa última frase e a ideia de que os homens começam a falar porque estão em sociedade, sem necessidade da língua se não há convívio. Considere.

Leve quanto tempo precisar, que não vou tratar disso hoje. Quero reparar um engano do comentador. Quando ela diz que Rousseau comete "alguns equívocos de ordem zoológica", ela se refere a esse trecho:
"Parece, ainda, pelas mesmas observações, que a invenção da arte de comunicar nossas ideias depende menos dos órgãos que nos servem para tal comunicação do que de uma faculdade própria do homem, que o faz empregar seus órgãos com o mesmo fim. Dai ao homem  uma organização tão grosseira quanto possais imaginar: induvitavelmente, adquirirá menos ideias, mas, desde que haja entre ele e seus semelhantes qualquer meio de comunicação pelo qual um possa agir e o outro sentir, acabarão afinal por comunicar todas as ideias que possuem.
"Os animais dispõem, para essa comunicação, de uma organização mais do que suficiente e jamais qualquer deles utilizou-a. Com o que, segundo me parece, se firma uma diferença muito característica. Aqueles animais que trabalham e vivem em comum, como os castores, as formigas e as abelhas, possuem — não duvido — alguma língua natural para se comunicarem entre si. Há mesmo razão para crer-se que a língua dos castores e a das formigas se compõem de gestos, falando somente aos olhos. De qualquer modo, justamente por serem naturais, tanto uma quanto outra dessas línguas não são adquiridas: os animais, que as falam, já as possuem ao nascer; todos as têm e em todos os lugares são as mesmas, absolutamente não as mudam e nelas não conhecem nenhum progresso. A língua de convenção só pertence ao homem e esta é a razão porque o homem progride, seja para o bem ou para o mal, e porque os animais não conseguem. Essa distinção, por si só, pode levar-nos longe." (Ensaio sobre a Origem das Línguas, Capítulo I; grifo nosso)
Certo, frente a isso, qual é o equívoco zoológico de Rousseau? Pesquisando, é possível saber que as abelhas, que foram citadas pelo filósofo, de fato possuem um esquema de comunicação muito elaborado, que se dá através de uma dança. Quanto às formigas, também citadas, há um vídeo interessante sobre gestos e comportamento que expressam sentido para elas: certa formiga, infectada por um fungo que poderia destruir a colônia, é afastada antes do parasita se desenvolver, é afastada para a morte no isolamento. As cenas que seguem podem lembrar Alien:


Assustador. Bom, além desses, existem as pesquisas sobre chimpanzés, sobre seu aprendizado da nossa linguagem e construção de conhecimento, e também sobre seu meio próprio de comunicar sentido. Encontra-se também pelo menos duas pesquisas (aqui e aqui) sobre a linguagem dos golfinhos. O paralelo rousseauniano vai na direção certa. Nessa última matéria sobre os macacos, repare nesse trecho:
"Será que grandes primatas e macacos têm uma linguagem secreta que ainda não foi decifrada? E se for o caso, será que isso vai resolver o mistério de como a faculdade humana da linguagem evoluiu? Biólogos abordam o assunto de duas maneiras: tentando ensinar linguagens humanas a chimpanzés e outras espécies, e escutando animais na vida selvagem. A primeira estratégia foi impulsionada pelo desejo intenso das pessoas - talvez reforçado pela exposição infantil a animais falantes em desenhos animados - de se comunicar com outras espécies. Os cientistas dedicaram imenso esforço para ensinar a linguagem a chimpanzés, seja na forma de sons ou de sinais." [leia completo]
Pois é, mas o que é posto como um avanço imprevisto da ciência, na verdade já existia; aqui o que se esquece é uma tradição anterior que já tinha se colocado essas questões. Há outros comentários a serem feitos sobre detalhes desse livro, mas vou postar depois.

terça-feira, 8 de junho de 2010

O Profeta e os Peixes

Imagine que você está em um campo de pesca, sentado, vara lançada à água. Entra então um homem vestido de túnica branca, corda amarrada na cintura, barba alva, crespa, longa, a indumentária de um profeta. Ele chega à frente do mar, invoca as forças da natureza e um peixe salta em direção a uma rede que traz consigo. Faz isso uma vez e outra vez. O que você faz? Como você reage?

Ao que parece, a tendência de reação é o puro fascínio. Como se vê nessa pegadinha do Sílvio Santos:


O interessante é que todos só permanecem estáticos no fascínio, no choque. Nenhum deles se move, se levanta para checar o que há naquele lado de mar, nenhum deles faz menção de seguir o personagem, ir escondido ver quem, o que, se é uma armação, todos se aquietam e começam a criar fantasias. O último dos homens do vídeo já usa uma série de referências: profeta, mago... de tal modo que seria engraçado se, no final, o funcionário do programa não lhe dissesse que se tratava de uma câmera escondida. Esse homem contaria à família o que viu, aos amigos, se convenceria de uma série de histórias ou, até mesmo, no pior dos casos, criaria uma religião.

O que você faria na mesma situação?

terça-feira, 1 de junho de 2010

Comece por aprender sua língua

1. Nesse post, eu afirmei que, em filosofia, entre o amador e o filósofo há, de fato, uma diferença qualitativa, mas essa variação não se dá entre tipos, mas procedendo através de gradações de um a outro. Lendo Condillac, um filósofo do século 18, encontrei ou penso ter encontrado algum reforço para aquela afirmação, de tal modo a expandi-la a precisões que eu não tinha previsto. Fiz uma seleção de trechos de vários livros que acaba por dizer que só existe uma ferramenta para conhecer qualquer que seja, e ela está presente tanto no filósofo mais rançoso quanto na criança mais ingênua.

2. Para expor qual seja essa ferramenta, na sua Lógica, Condillac evoca o exemplo de uma planície que vemos através de uma janela. Vemos um planície, ao longe, estamos no topo de um castelo e enxergamos tudo o que há lá embaixo. Se nos fosse dado olhar esse panorama por um instante e de súbito nos cobrissem a visão, o que teríamos visto? Se dissessem: "o que há na planície?", poderíamos responder? Você já deve ter a resposta, mas me deixe adicionar um outro exemplo. Levante-se de onde está e abra uma gaveta, ou um armário, ou um livro, olhe só uma vez e não mais, feche. Você poderá dizer o que estava nos móveis ou o que estava escrito? Dificilmente. Agora repita o processo e olhe quanto tempo quiser, diga para si o que viu. E então responda: como foi que você obteve o conhecimento do que estava lá? Ele não lhe veio de uma só vez, como vimos. Então, como veio?

Por partes. Vendo cada coisa de uma vez e depois sabendo todas de uma vez. Condillac diz:
"(...) O mesmo acontece com a visão do espírito. Eu tenho ao mesmo tempo presente um grande número de conhecimentos que se me tornaram familiares: eu os vejo todos, mas não os distingo do mesmo modo. Para ver de uma maneira distinta tudo o que se oferece ao mesmo tempo ao meu espírito, é preciso que eu decomponha como decompus o que se oferecia a meus olhos, é preciso que eu análise meu pensamento. Esta análise do meu pensamento não se faz de modo diferente da análise dos objetos exteriores. Decompõe-se da mesma maneira: descrevem-se as partes de seu pensamento numa ordem sucessiva, para reestabecê-las numa ordem simultânea." (Lógica, parte 1, Capítulo II)
3. É essa habilidade, a análise, para Condillac, que está presente em todos e que franqueia nosso acesso a todo conhecimento que podemos ter com consistência.
"Cada um pode se convencer desta verdade por sua própria experiência; até as pequenas costureiras estão convencidas: pois, se lhes dermos um vestido e lhes propusermos fazer um semelhante, elas imaginarão naturalmente desfazer e refazer esse modelo, para aprender a fazer o vestido que solicitamos. Elas conhecem a análise tão bem quanto os filósofos (...)." (Lógica, parte 1, Capítulo II)
Ele segue adiante:
"Existem espíritos sábios que parecem nunca ter estudado, porque parecem nunca ter pensado para instruir. Todavia, fizeram estudos e os fizeram cuidadosamente. Como estudaram sem intenção premeditada, não pensaram em tomar lições com nenhum mestre e tiveram o melhor de todos, a natureza.
"Existem espíritos falsos que fizeram grandes estudos. Eles se vangloriam de possuir bastante método e só raciocinam mal porque o método não é o correto. Quanto mais insistimos num método falso, mais no extraviamos. Tomamos por princípios noções vagas, palavras vazias de sentido; constituímos um jargão científico, no qual acreditamos ter a evidência; e no entanto não sabemos, na verdade, nem o que vemos, nem o que pensamos, nem o que dizemos." (Lógica, parte 1, Capítulo III)
4. Nesse último trecho, além de dar a análise capacidades além da tradição, ou que prescindam da tradição, Condillac fala de "método falso", "raciocinar mal". Pense aí consigo: o que seria um método falso? Como é que se raciocina mal? Se você se lembrar dos acontecidos em que pensou errado, e se ver as semelhanças entre todos, você terá analisado, e terá ganho um conhecimento que esse post nunca poderá te dar. O filósofo também fala que "não sabemos nem o que vemos, nem o que pensamos, nem o que dizemos". Isso pode ser? Pode ser que eu não saiba o que penso ou o que não saiba o que digo? Novamente, se você se lembrar de casos assim, receberá muito mais.

5. Até esse ponto, a análise foi tratada como presente em todos os campos da vida, como útil e não separável de nenhum de nós. Falamos de mau raciocínio sem nem citar a filosofia. Cá embaixo o tratamento é um passo a frente já nos liga muito mais com o assunto do outro post. A citação é longa porque é preciso:
"Quando você estuda uma ciência nova, se ela está bem exposta, os começos devem ser mais fáceis: porque o conduzem do conhecido ao desconhecido. Fazem-no, portanto, encontrar, nos seus conhecimentos, as primeiras coisas que você deve notar, e parece que você as sabia antes de tê-las aprendido.
Entretanto, quanto mais esse começo é fácil, mais você se apressa em ir mais longe; você entendeu e crê que isso lhe é suficiente. Mas note que você tem uma língua para aprender e que uma língua não se sabe somente pelo fato de ter visto as palavras uma vez: é necessário falá-la, é necessário torná-la familiar. Não se espante, portanto, se, depois de ter entendido um primeiro capítulo, tenha alguma dificuldade em entender o segundo, o qual você percorre muito rapidamente. Continuando dessa maneira, lhe será muito mais difícil, ainda, entender o terceiro. Comece, portanto, lentamente, e tudo lhe será fácil quando o começo lhe for familiar.
Entretanto, resta uma dificuldade, e ela é grande. Ela advém de que, antes de ter estudado as ciências, você já fala a língua e você a fala mal. Portanto, com exceção de algumas palavras que lhe são novas, a língua das ciências é a sua. Ora, convenha que você fala frequentemente sua língua sem entender o que você diz, ou que você se entende mais ou menos. Isso, entretanto, lhe é suficiente e isso é suficiente aos outros porque eles lhes pagam com a mesma moeda. Parece que, para manter nossas conversações, concordamos tacitamente que as palavras substituem [o valor das] ideias, como o jogo das fichas substitui o do dinheiro; e ainda que haja ao menos um grito contra aqueles que têm a imprudência de jogar, sem estarem informados do valor das fichas, cada um pode impunemente falar sem ter aprendido o valor das palavras. Você quer aprender as ciências com facilidade? Comece por aprender sua língua. (Tratado dos Sistemas, capítulo XVIII)"
Há aqui um modo de proceder. Algumas especificações de como não raciocinar mal. Nos meus termos, modos de atravessar as gradações do amador ao filósofo.

6. Do amador ao filósofo, ou de uma pessoa menor a uma pessoa maior. Mas para os propósitos desse texto o que foi dito foi suficiente. Termino com Condillac reformulando o que ele disse e sendo ainda mais incisivo:
"Mas aprender uma língua é familiarizar-se com ela, o que só pode ocorrer pelo efeito de um longo uso. É preciso, então, ler com reflexão, várias vezes, falar sobre o que se leu e reler ainda para se assegurar de haver falado bem. (...)
Um inconveniente maior é que se compreenderá mal, se fizermos da linguagem da pessoa que estuda, que sempre conservará algo, e da minha, que se acreditará ter captado, um jargão ininteligível. Eis o que acontecerá aos que se creem instruídos (...). De qualquer modo que eles me leiam, ser-lhes-á bem difícil esquecer o que aprenderam para aprender apenas o que ensino; eles desdenharão recomeçar comigo: farão pouco caso da minha obra, se se aperceberem que não a compreendem, e se imaginam comprendê-la, ainda farão pouco caso, porque eles compreenderão à sua maneira e acreditarão não haver aprendido nada. É bem comum, entre os que se julgam sábios, não ver nos melhores livros senão o que eles sabem, e, consequentemente, lê-los sem nada aprender: não veem nada de novo numa obra em que tudo é novo para eles." (Lógica, Capítulo IX)

sexta-feira, 28 de maio de 2010

"Não me admiro..."

"(...) da qualidade de minhas respostas podereis compreender que não é nelas, mas nas vossas próprias objeções, que tem raiz aquele fruto que, não sem meu desgosto, poderia talvez amargar-vos em certa parte o gosto: que bem devíeis, Sr. Ingoli (e seja-me permitido, por vossa ingenuidade filosófica e por minha antiga afeição por vós, dizer muito livremente), pondo-vos, como se diz, as mãos no peito, e sabendo consistentemente que Nicolau Copérnico tinha bastante mais anos nessas dificílimas especulações que vós dias consumados, devíeis, digo, aconselhar-vos melhor e não deixar-vos facilmente persuadir de poder aterrar um tal homem e, principalmente, com aquele tipo de armas com as quais o afrontais, que finalmente fazem parte das objeções mais comuns e usuais que se fazem nesta matéria, e se, ainda assim, existir nisso alguma coisa de vosso, esta é de menos eficácia que as outras. Portanto, esperáveis que Nicolau Copérnico não tenha penetrado os mistérios do facílimo Sacrobosco? Que ele não tenha entendido a paralaxe? Que ele não tenha lido e entendido Ptolomeu e Aristóteles? Eu não me admiro que tenhais confiado de poder vencê-lo, pois que tão pouco o estimáveis. Mas se vós o tivésseis lido com toda aquela atenção que vos é necessária para bem entendê-lo, quando não fosse por outra coisa, pelo menos a dificuldade da matéria teria de algum modo atordoado em vós aqueles espíritos contraditórios que, antes de tomar tamanha resolução, vos teríeis refreado e mesmo totalmente abstido."

domingo, 18 de abril de 2010

A Ciência Ri

Estive lendo A Ciência Ri, coletânea de cartoons de Sidney Harris. Faz graça da ciência, da filosofia, da psicologia, da evolução. No site do autor, você vê quase todos.







terça-feira, 30 de março de 2010

O Desprezo ao Amador

1. Eu escrevi algumas coisas no post anterior (“O que mantém a Filosofia viva”) que me incomodaram um pouco na releitura. Eu disse: “do alto do meu conhecimento de O Mundo de Sofia”, meio que desprezando. Perguntei se a resposta de alguém era a melhor possível ou “a melhor que ela podia dar pra mim?”, indicando que, adolescente que eu era, houvesse coisas que eu supostamente não poderia entender à época. Também sugeri que a Filosofia de verdade (para mim) não chegava nem perto do “bate-papo engajado cheio de palavras difíceis”, e com isso eu tinha em mente um tipo bem particular de pessoa, que não estudou, mas sabe uma série de termos e um pouco de história (similar ao primeiro trecho que citei, só que aplica a ideia de forma geral). No cerne, eu realizo uma divisão rígida entre filosofia acadêmica, de estudo e pesquisa, e filosofia amadora. Como se fosse impossível para esses ‘amadores’ alcançarem qualquer coisa do primeiro tipo. Mas isso é verdade?

2. Antes que eu analise se é ou não, quero saber por que é que essa divisão surgiu no texto, já que eu a não decidi antes de escrever e ela foi incluída naturalmente, no fluxo da escrita. Em certo nível, ela funciona para valorizar o texto e autor, na medida em que supervaloriza o ensino acadêmico. Porque sou eu que estou fazendo a graduação e sou eu que agora não faço mais parte dos filósofos amadores. É como se eu dissesse: da mesma forma como esse tipo de formação tem valor, tem o meu texto. É uma espécie de falácia, um Argumentum Ad Verecundiam (Apelo à Autoridade) difuso. Daí para um: seja como eu. E no parágrafo 4, eu conto algo como uma história de superação. Por outro lado, já que a ideia se escreveu, não a construi premeditadamente, creio que ela já estava há tempos dentro de mim. É evidente, já que crer que sou demasiado amador é uma das coisas que me levaram a fazer o curso. Mas já agora duvido dessa crença e ressignifico a pergunta do outro parágrafo: o quanto amador eu de fato eu era? O quanto isso verdadeiramente me limitava?

3. Em um de seus textos, Bernard Shaw sugere que troquemos o ou isso ou aquilo (ou bom ou mal; ou de direita ou de esquerda; etc) por uma visão nivelada: o quanto disso, o quanto daquilo. Pensando sobre o que diferencia o acadêmico do amador, por assim dizer, cheguei a conclusão de que se trata de variação nos níveis dos seguintes aspectos: rigor, disciplina, condições de formação e fontes de informação. Dependendo do nível alto ou baixo de cada um desses termos, o indivíduo vai estar mais ou menos perto do que seja amador e mais ou menos perto do que seja acadêmico. Aqui creio que é melhor refazer uma definição: não há motivo para endeusar a priori o acadêmico. Ter feito a faculdade, entrado e depois saído de lá são e salvo não implica em grande rigor e disciplina, formação e erudição amplas. Já que estamos pensando por níveis, não por categorias estanques, vamos considerar, pelo menos agora, todos como filósofos, mais ou menos próximos do filósofo ideal, ou completo.

4. Creio que essa ideia existia no outro post, de certa forma. Eu digo: “se não há finalidade assentada, todo currículo vale (...) da mediocridade à excelência, as opções são múltiplas e não há critério para distinguir entre o que seja bom e o que seja ruim, porque não há ideal”. Passo então a falar das condições que permitem que, para o senso comum, filósofo amador e acadêmico (usando os termos que deixamos pra trás) fiquem em pé de igualdade. Por fim, no parágrafo 6, eu defini o que seria o filósofo de excelência. Também já tinha colocado as coisas em escala: “esse conjunto de acepções leva ao que se chama excelência”. Ou seja, é um caminho, do mal feito ao aperfeiçoado. Mas incorri nesses prejuízos que citei, que dão a aparência de imobilidade. Podemos dar um passo adiante do parágrafo 2 do post atual: não me limitava a condição em si de amador, mas como eu a vivia.

5. Rigor é a exigência que se faz para si mesmo de realizar coisas bem acabadas. Disciplina é a adoção de um método e a força para seguir nele. São duas palavras meio empoeiradas e meio aborrecidas, mas você pode escolher as que façam sentido pra você. Sem rigor, todos os textos e análises que eu fizer poderão ter problemas sem que eu perceba; sem disciplina, estarei escrevendo o mesmo, sem evoluir, ou evoluindo por espasmos. Mais importante que os dois, agora, são fontes de informação e condições de formação. As ideias que passam do autor original, são traduzidas pelo tradutor, filtradas pelas várias inteligências, mastigadas pelos divulgadores, simplificadas pelos jornalistas — essas ideias se desfiguram cada vez mais do original. Descartes disse, no Discurso do Método:
"Não me espantam de modo algum as extravagâncias que se atribuem a todos esses antigos filósofos, nem julgo, por isso, que seus pensamentos tenham sido muito desarrozoados, visto serem os melhores espíritos de seu tempo, mas apenas julgo que nos foram mal relatados. Porque se vê também que quase nunca aconteceu de algum de seus sectários os haja superado: e estou seguro de que os mais apaixonados dos que seguem Aristóteles crer-se-iam felizes se tivessem tanto conhecimento da natureza quanto ele teve, embora sob a condição de nunca o terem maior são como a hera, que não tende a subir mais alto que as árvores que a sustentam, e que muitas vezes torna mesmo a descer, depois de ter chegado ao topo.
6. Considero que, na universidade, as fontes de informação são certamente mais gabaritadas do que as mais comuns, e haverá estímulo para repetir a leitura e entrar em contato com os originais. Essa é possivelmente o item que mais distinguirá um bom filósofo do mediano. O que eu chamo de condições de formação são as experiências de vida, profissionais e etc que nos fazem refletir de alguma forma sobre as coisas. Nosso background. Isso vai levar outro texto para analisar, mas vou comentar um pouco. Ouvi dizer, por exemplo, que a política de Aristóteles era ineficaz, porque ele conheceu poucos exemplos e não viveu tudo o que veio. E é uma anedota muito conhecida a que segue: uma edição do New York Times traz mais informação do que um homem na Idade Média teria durante toda a vida. São historinhas. Mas demonstram qual é o potencial desse background imenso que temos, criado pela época frenética em que vivemos. Então, por que não chegamos aos pés dos antigos?

sexta-feira, 19 de março de 2010

O que mantém a Filosofia viva

1. Na primeira aula que tive no curso de graduação, entre outras considerações, citaram várias especificidades do ensino de Filosofia. A primeira é que o curso é estruturado de forma profissionalizante, assim como os demais cursos da universidade. A segunda é que, ao contrário desses outros cursos, não prepara o aluno para uma atividade específica, não o equipa para resolver determinado tipo de situação ou problema. À primeira vista, pensei que o professor iria explorar o que, para mim, se mostrava como uma evidente contradição. Quando um aluno de medicina cumpre a sua carga horária, supõe-se que ele objetivamente estará pronto para operar um apêndice ou corrigir um fígado; mas ao fim do currículo de Filosofia, qual objetivamente minha função? Se não há finalidade assentada, todo currículo vale como qualquer outro; da mediocridade à excelência, as opções são múltiplas e não há critério simples para distinguir entre o que seja bom e o que seja ruim, porque não há ideal.

2. Isso é certamente válido para dois casos. A graduação, somada à licenciatura, dá um alvo claro ao recém-formado: ser professor. Qual o problema específico que um professor dessa matéria resolve? No Ensino Médio, tive três experiências. Ou o docente preenche a lousa com história e nos enche de frases que supõe-se conterem conceitos; ou ele tenta estimular uma série de discussões sem método sobre assuntos variados; ou uma união dos dois, que é o debate solto com interferência do professor citando a ideia de algum filósofo. O medíocre é possível em todos esses casos, e a sociedade nem teria como saber que ele o é, já que não há o modelo do que um filósofo deveria ser. Vou voltar a isso mais tarde. O outro caso que citei é o uso cotidiano do termo “filosofia”. Que significa qualquer ideologia, processo que deva ser seguido para qualquer coisa, opinião que se pense deslocada da realidade, de modo que todos sejam filósofos de alguma maneira ou de que a filosofia seja inútil de todo.

3. A terceira consideração que foi feita é: muitos dos assuntos tratados na Filosofia estão de forma latente envolvidos com nossa própria personalidade, interesses individuais/pessoais, temas que às vezes nos afetam diretamente e, por isso, o pensar sobre esses assuntos corre o risco de ser violentado pelos nossos preconceitos, prevenções e prejuízos. Nos interessamos pelos filósofos com quem concordamos ou cujas ideias servem a sustentar nossos próprios pensamentos prévios. Borges me parece descrever bem isso em "A Biblioteca de Babel":

“Como todos os homens da Biblioteca, viajei na minha juventude; peregrinei em busca de um livro, talvez o catálogo dos catálogos; agora que meus olhos quase não podem decifrar o que escrevo, preparo-me para morrer, a poucas léguas do hexágono em que nasci. Morto, mãos piedosas não faltarão que me tirem pela varanda afora; minha sepultura será o ar insondável: meu corpo se fundirá dilatadamente e se corromperá e dissolverá no vento originado pela queda que é infinita. Afirmo que a Biblioteca é interminável.” [leia completo]

4. No Ensino Médio, isso me descrevia de forma exata. Perguntei um dia à professora, que filosofia a seguir, de todas essas, os montes a derrapar nas prateleiras, qual o filósofo acima do vulgo, qual as ideias que compilam o resto, indicam a senda de luz. Não perguntei assim não, mas era assim. Do alto do meu conhecimento de O Mundo de Sofia, eu queria saber: so what? E ela me respondeu a resposta desagradável: não há. Pegamos os fragmentos de cada um para construir nosso ser. Era a melhor resposta que ela podia dar ou essa era a melhor que ela podia dar para mim? É até injusto que eu descreva as aulas dela como descrevi. No começo, havia ímpeto, havia vontade, mas ela perdeu o ânimo, afogada no desinteresse que era o padrão da sala, talvez pelas ideias que se tem da Filosofia e que citei. De todo modo, ela me cuspiu que eu não seguia em direção a um messias.

5. Se a Filosofia não se presta a embasar minha ideologia prévia; não se trata de um decorar esquemático da data em que nasceu Descartes e da única frase que disse: penso, logo existo; nem mesmo pode se achar com frequência na conversa delirante ou no bate-papo engajado cheio de palavras difíceis usadas sempre somente para provar o que o interlocutor quer, que inferno, então para que serve esse troço? Se é para ser professor, certo é que não seja para alimentar as atitudes enumeradas antes. Você pode estar pensando: lá em cima ele disse que não há função, e agora pergunta, assim, leviano? Acredito que haja uma função, sim. Mas ela não é um fator limitante. Não é uma estrada e o ponto de chegada. É o campo aberto e a incerteza. A floresta tenebrosa conosco no centro.

6. Essa última imagem é um retrabalho do que li em Descartes, depois faço a citação e você decide se eu usei o francês de forma errada. Acredito — tanto pelo que vim lendo durante toda a minha formação, pelos livros da infância e adolescência, pelo curso de Jornalismo e também pelas características que eu quero reconhecer na graduação atual — que a “função” da Filosofia é preparar para atuar em meio àqueles problemas “resolvidos” pela técnica e avaliar o que está nas entrelinhas. É desmontar os discursos, reinterpretar resultados, seguir a atualidade ao mesmo tempo em que se acompanha o percurso das ideias desde sempre, e assim desconstruindo crenças na originalidade de ideologias ou apontando falhas velhas. É, enfim, estabelecer a antesala da certeza, o espaço a percorrer antes de se lançar à fé. E que talvez nunca seja vencido de todo. A Filosofia não pode ter um fim, porque ela é a origem.

7. Não creio que possa ser só isso, mas acredito fortemente que essa seja a sua alma. Nós, antes, citamos vários exemplos do que era medíocre; agora, todo esse outro conjunto de acepções creio que leva ao que se chama excelência, seja qual for a linha de pesquisa que se assuma no futuro. Admiti-lo é assumir o propósito original. Compreender o que mantém a Filosofia viva.

domingo, 14 de março de 2010

Responsabilidade de Pensante

Entre os 16 e 20 anos, mantive o eutenhoumblog. Eis um texto da época.

(adicionei links e de resto não fiz qualquer alteração. O texto é de 10/12/2003.)
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Responsabilidade de Pensante

Mudar o mundo; Um animal é uma criança que só come, dorme e quer brincar. Um ser pensante é a criança que se considera o centro do mundo. Pensar, auto-denominar-se filósofo ou coisa que o valha é ter absoluta certeza de que suas idéias são melhores do que outras, é ter certeza de que sua concepção de vida é tão melhor que qualquer outra.

É crer que as pessoas devem segui-lo. Que são um rebanho de condenados.

Pensar é acreditar veementemente que o mundo todo está errado.

Pois pense: se o mundo está certo, para que me preocupar? Nadar a favor da corrente seria a alternativa correta; e para meio bilhão de pessoas, a vida está certa, o mundo está certo - é assim que as coisas devem ser, então, vamos seguir a corrente, e chegar primeiro, se der.

Controle populacional é fazer acreditar que as coisas estão certas, ou indo para algo certo; é criar um modus operandi da vida.

E é claro que eu acho que isso está errado; 'Criatura pensante', não foi o que eu disse? 'Bobeira é não viver a realidade'. A realidade, não fui eu que criei, não posso reclamar. Mas acho que está errado não reclamar, então, reclamo.

Pensar, filosofar, é fazer birra.

A única responsabilidade do pensante é fazer birra, o máximo que puder. Depois que você morre, chamam isso de revolução, e, ou te amam, ou te adoram.

Viver é ter alguém pra amar e alguém pra odiar.

Não se pensa quando ama, não se pensa quando odeia.

Pensar é não viver.

Coisas pensantes abdicam da vida e entram em algo diferente.

É responsabilidade de pensante voltar desse negócio estranho para a vida e dizer que foi legal.

Afinal, todo mundo conta história, 'no ato falho eu sou um fruto da criação'.