terça-feira, 1 de junho de 2010

Comece por aprender sua língua

1. Nesse post, eu afirmei que, em filosofia, entre o amador e o filósofo há, de fato, uma diferença qualitativa, mas essa variação não se dá entre tipos, mas procedendo através de gradações de um a outro. Lendo Condillac, um filósofo do século 18, encontrei ou penso ter encontrado algum reforço para aquela afirmação, de tal modo a expandi-la a precisões que eu não tinha previsto. Fiz uma seleção de trechos de vários livros que acaba por dizer que só existe uma ferramenta para conhecer qualquer que seja, e ela está presente tanto no filósofo mais rançoso quanto na criança mais ingênua.

2. Para expor qual seja essa ferramenta, na sua Lógica, Condillac evoca o exemplo de uma planície que vemos através de uma janela. Vemos um planície, ao longe, estamos no topo de um castelo e enxergamos tudo o que há lá embaixo. Se nos fosse dado olhar esse panorama por um instante e de súbito nos cobrissem a visão, o que teríamos visto? Se dissessem: "o que há na planície?", poderíamos responder? Você já deve ter a resposta, mas me deixe adicionar um outro exemplo. Levante-se de onde está e abra uma gaveta, ou um armário, ou um livro, olhe só uma vez e não mais, feche. Você poderá dizer o que estava nos móveis ou o que estava escrito? Dificilmente. Agora repita o processo e olhe quanto tempo quiser, diga para si o que viu. E então responda: como foi que você obteve o conhecimento do que estava lá? Ele não lhe veio de uma só vez, como vimos. Então, como veio?

Por partes. Vendo cada coisa de uma vez e depois sabendo todas de uma vez. Condillac diz:
"(...) O mesmo acontece com a visão do espírito. Eu tenho ao mesmo tempo presente um grande número de conhecimentos que se me tornaram familiares: eu os vejo todos, mas não os distingo do mesmo modo. Para ver de uma maneira distinta tudo o que se oferece ao mesmo tempo ao meu espírito, é preciso que eu decomponha como decompus o que se oferecia a meus olhos, é preciso que eu análise meu pensamento. Esta análise do meu pensamento não se faz de modo diferente da análise dos objetos exteriores. Decompõe-se da mesma maneira: descrevem-se as partes de seu pensamento numa ordem sucessiva, para reestabecê-las numa ordem simultânea." (Lógica, parte 1, Capítulo II)
3. É essa habilidade, a análise, para Condillac, que está presente em todos e que franqueia nosso acesso a todo conhecimento que podemos ter com consistência.
"Cada um pode se convencer desta verdade por sua própria experiência; até as pequenas costureiras estão convencidas: pois, se lhes dermos um vestido e lhes propusermos fazer um semelhante, elas imaginarão naturalmente desfazer e refazer esse modelo, para aprender a fazer o vestido que solicitamos. Elas conhecem a análise tão bem quanto os filósofos (...)." (Lógica, parte 1, Capítulo II)
Ele segue adiante:
"Existem espíritos sábios que parecem nunca ter estudado, porque parecem nunca ter pensado para instruir. Todavia, fizeram estudos e os fizeram cuidadosamente. Como estudaram sem intenção premeditada, não pensaram em tomar lições com nenhum mestre e tiveram o melhor de todos, a natureza.
"Existem espíritos falsos que fizeram grandes estudos. Eles se vangloriam de possuir bastante método e só raciocinam mal porque o método não é o correto. Quanto mais insistimos num método falso, mais no extraviamos. Tomamos por princípios noções vagas, palavras vazias de sentido; constituímos um jargão científico, no qual acreditamos ter a evidência; e no entanto não sabemos, na verdade, nem o que vemos, nem o que pensamos, nem o que dizemos." (Lógica, parte 1, Capítulo III)
4. Nesse último trecho, além de dar a análise capacidades além da tradição, ou que prescindam da tradição, Condillac fala de "método falso", "raciocinar mal". Pense aí consigo: o que seria um método falso? Como é que se raciocina mal? Se você se lembrar dos acontecidos em que pensou errado, e se ver as semelhanças entre todos, você terá analisado, e terá ganho um conhecimento que esse post nunca poderá te dar. O filósofo também fala que "não sabemos nem o que vemos, nem o que pensamos, nem o que dizemos". Isso pode ser? Pode ser que eu não saiba o que penso ou o que não saiba o que digo? Novamente, se você se lembrar de casos assim, receberá muito mais.

5. Até esse ponto, a análise foi tratada como presente em todos os campos da vida, como útil e não separável de nenhum de nós. Falamos de mau raciocínio sem nem citar a filosofia. Cá embaixo o tratamento é um passo a frente já nos liga muito mais com o assunto do outro post. A citação é longa porque é preciso:
"Quando você estuda uma ciência nova, se ela está bem exposta, os começos devem ser mais fáceis: porque o conduzem do conhecido ao desconhecido. Fazem-no, portanto, encontrar, nos seus conhecimentos, as primeiras coisas que você deve notar, e parece que você as sabia antes de tê-las aprendido.
Entretanto, quanto mais esse começo é fácil, mais você se apressa em ir mais longe; você entendeu e crê que isso lhe é suficiente. Mas note que você tem uma língua para aprender e que uma língua não se sabe somente pelo fato de ter visto as palavras uma vez: é necessário falá-la, é necessário torná-la familiar. Não se espante, portanto, se, depois de ter entendido um primeiro capítulo, tenha alguma dificuldade em entender o segundo, o qual você percorre muito rapidamente. Continuando dessa maneira, lhe será muito mais difícil, ainda, entender o terceiro. Comece, portanto, lentamente, e tudo lhe será fácil quando o começo lhe for familiar.
Entretanto, resta uma dificuldade, e ela é grande. Ela advém de que, antes de ter estudado as ciências, você já fala a língua e você a fala mal. Portanto, com exceção de algumas palavras que lhe são novas, a língua das ciências é a sua. Ora, convenha que você fala frequentemente sua língua sem entender o que você diz, ou que você se entende mais ou menos. Isso, entretanto, lhe é suficiente e isso é suficiente aos outros porque eles lhes pagam com a mesma moeda. Parece que, para manter nossas conversações, concordamos tacitamente que as palavras substituem [o valor das] ideias, como o jogo das fichas substitui o do dinheiro; e ainda que haja ao menos um grito contra aqueles que têm a imprudência de jogar, sem estarem informados do valor das fichas, cada um pode impunemente falar sem ter aprendido o valor das palavras. Você quer aprender as ciências com facilidade? Comece por aprender sua língua. (Tratado dos Sistemas, capítulo XVIII)"
Há aqui um modo de proceder. Algumas especificações de como não raciocinar mal. Nos meus termos, modos de atravessar as gradações do amador ao filósofo.

6. Do amador ao filósofo, ou de uma pessoa menor a uma pessoa maior. Mas para os propósitos desse texto o que foi dito foi suficiente. Termino com Condillac reformulando o que ele disse e sendo ainda mais incisivo:
"Mas aprender uma língua é familiarizar-se com ela, o que só pode ocorrer pelo efeito de um longo uso. É preciso, então, ler com reflexão, várias vezes, falar sobre o que se leu e reler ainda para se assegurar de haver falado bem. (...)
Um inconveniente maior é que se compreenderá mal, se fizermos da linguagem da pessoa que estuda, que sempre conservará algo, e da minha, que se acreditará ter captado, um jargão ininteligível. Eis o que acontecerá aos que se creem instruídos (...). De qualquer modo que eles me leiam, ser-lhes-á bem difícil esquecer o que aprenderam para aprender apenas o que ensino; eles desdenharão recomeçar comigo: farão pouco caso da minha obra, se se aperceberem que não a compreendem, e se imaginam comprendê-la, ainda farão pouco caso, porque eles compreenderão à sua maneira e acreditarão não haver aprendido nada. É bem comum, entre os que se julgam sábios, não ver nos melhores livros senão o que eles sabem, e, consequentemente, lê-los sem nada aprender: não veem nada de novo numa obra em que tudo é novo para eles." (Lógica, Capítulo IX)