terça-feira, 30 de março de 2010

O Desprezo ao Amador

1. Eu escrevi algumas coisas no post anterior (“O que mantém a Filosofia viva”) que me incomodaram um pouco na releitura. Eu disse: “do alto do meu conhecimento de O Mundo de Sofia”, meio que desprezando. Perguntei se a resposta de alguém era a melhor possível ou “a melhor que ela podia dar pra mim?”, indicando que, adolescente que eu era, houvesse coisas que eu supostamente não poderia entender à época. Também sugeri que a Filosofia de verdade (para mim) não chegava nem perto do “bate-papo engajado cheio de palavras difíceis”, e com isso eu tinha em mente um tipo bem particular de pessoa, que não estudou, mas sabe uma série de termos e um pouco de história (similar ao primeiro trecho que citei, só que aplica a ideia de forma geral). No cerne, eu realizo uma divisão rígida entre filosofia acadêmica, de estudo e pesquisa, e filosofia amadora. Como se fosse impossível para esses ‘amadores’ alcançarem qualquer coisa do primeiro tipo. Mas isso é verdade?

2. Antes que eu analise se é ou não, quero saber por que é que essa divisão surgiu no texto, já que eu a não decidi antes de escrever e ela foi incluída naturalmente, no fluxo da escrita. Em certo nível, ela funciona para valorizar o texto e autor, na medida em que supervaloriza o ensino acadêmico. Porque sou eu que estou fazendo a graduação e sou eu que agora não faço mais parte dos filósofos amadores. É como se eu dissesse: da mesma forma como esse tipo de formação tem valor, tem o meu texto. É uma espécie de falácia, um Argumentum Ad Verecundiam (Apelo à Autoridade) difuso. Daí para um: seja como eu. E no parágrafo 4, eu conto algo como uma história de superação. Por outro lado, já que a ideia se escreveu, não a construi premeditadamente, creio que ela já estava há tempos dentro de mim. É evidente, já que crer que sou demasiado amador é uma das coisas que me levaram a fazer o curso. Mas já agora duvido dessa crença e ressignifico a pergunta do outro parágrafo: o quanto amador eu de fato eu era? O quanto isso verdadeiramente me limitava?

3. Em um de seus textos, Bernard Shaw sugere que troquemos o ou isso ou aquilo (ou bom ou mal; ou de direita ou de esquerda; etc) por uma visão nivelada: o quanto disso, o quanto daquilo. Pensando sobre o que diferencia o acadêmico do amador, por assim dizer, cheguei a conclusão de que se trata de variação nos níveis dos seguintes aspectos: rigor, disciplina, condições de formação e fontes de informação. Dependendo do nível alto ou baixo de cada um desses termos, o indivíduo vai estar mais ou menos perto do que seja amador e mais ou menos perto do que seja acadêmico. Aqui creio que é melhor refazer uma definição: não há motivo para endeusar a priori o acadêmico. Ter feito a faculdade, entrado e depois saído de lá são e salvo não implica em grande rigor e disciplina, formação e erudição amplas. Já que estamos pensando por níveis, não por categorias estanques, vamos considerar, pelo menos agora, todos como filósofos, mais ou menos próximos do filósofo ideal, ou completo.

4. Creio que essa ideia existia no outro post, de certa forma. Eu digo: “se não há finalidade assentada, todo currículo vale (...) da mediocridade à excelência, as opções são múltiplas e não há critério para distinguir entre o que seja bom e o que seja ruim, porque não há ideal”. Passo então a falar das condições que permitem que, para o senso comum, filósofo amador e acadêmico (usando os termos que deixamos pra trás) fiquem em pé de igualdade. Por fim, no parágrafo 6, eu defini o que seria o filósofo de excelência. Também já tinha colocado as coisas em escala: “esse conjunto de acepções leva ao que se chama excelência”. Ou seja, é um caminho, do mal feito ao aperfeiçoado. Mas incorri nesses prejuízos que citei, que dão a aparência de imobilidade. Podemos dar um passo adiante do parágrafo 2 do post atual: não me limitava a condição em si de amador, mas como eu a vivia.

5. Rigor é a exigência que se faz para si mesmo de realizar coisas bem acabadas. Disciplina é a adoção de um método e a força para seguir nele. São duas palavras meio empoeiradas e meio aborrecidas, mas você pode escolher as que façam sentido pra você. Sem rigor, todos os textos e análises que eu fizer poderão ter problemas sem que eu perceba; sem disciplina, estarei escrevendo o mesmo, sem evoluir, ou evoluindo por espasmos. Mais importante que os dois, agora, são fontes de informação e condições de formação. As ideias que passam do autor original, são traduzidas pelo tradutor, filtradas pelas várias inteligências, mastigadas pelos divulgadores, simplificadas pelos jornalistas — essas ideias se desfiguram cada vez mais do original. Descartes disse, no Discurso do Método:
"Não me espantam de modo algum as extravagâncias que se atribuem a todos esses antigos filósofos, nem julgo, por isso, que seus pensamentos tenham sido muito desarrozoados, visto serem os melhores espíritos de seu tempo, mas apenas julgo que nos foram mal relatados. Porque se vê também que quase nunca aconteceu de algum de seus sectários os haja superado: e estou seguro de que os mais apaixonados dos que seguem Aristóteles crer-se-iam felizes se tivessem tanto conhecimento da natureza quanto ele teve, embora sob a condição de nunca o terem maior são como a hera, que não tende a subir mais alto que as árvores que a sustentam, e que muitas vezes torna mesmo a descer, depois de ter chegado ao topo.
6. Considero que, na universidade, as fontes de informação são certamente mais gabaritadas do que as mais comuns, e haverá estímulo para repetir a leitura e entrar em contato com os originais. Essa é possivelmente o item que mais distinguirá um bom filósofo do mediano. O que eu chamo de condições de formação são as experiências de vida, profissionais e etc que nos fazem refletir de alguma forma sobre as coisas. Nosso background. Isso vai levar outro texto para analisar, mas vou comentar um pouco. Ouvi dizer, por exemplo, que a política de Aristóteles era ineficaz, porque ele conheceu poucos exemplos e não viveu tudo o que veio. E é uma anedota muito conhecida a que segue: uma edição do New York Times traz mais informação do que um homem na Idade Média teria durante toda a vida. São historinhas. Mas demonstram qual é o potencial desse background imenso que temos, criado pela época frenética em que vivemos. Então, por que não chegamos aos pés dos antigos?