quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Materialismo Histórico, Psicanálise, Biologia: Machistas?

A célebre frase “não se nasce mulher, torna-se”, de O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir ecoa a de Jean-Paul Sartre, de O Existencialismo é um Humanismo: "A existência precede a essência". Se com isso o filósofo francês pretendia dizer que não há determinações prévias ao indivíduo, um "manual prévio" que defina como ele deverá agir, pensar, sentir ou ser, em Beauvoir isso ressalta que não há uma "essência feminina", algo que defina a priori o destino de uma mulher. Sartre diz:
"(...) há pelo menos um ser no qual a existência precede a essência, um ser que existe antes de poder ser definido por qualquer conceito: esse ser é o homem, ou, como diz Heidegger, a realidade humana. O que significa, aqui, dizer que a existência precede a essência? Significa que, em primeira instância, o homem existe, encontra a si mesmo, surge no mundo e só posteriormente se define. O homem, tal como o existencialista o concebe, só não é passível de uma definição porque, de início, não é nada: só posteriormente será alguma coisa e será aquilo que fizer de si mesmo". (Sartre, O Existencialismo é um Humanismo, 1970)
Da mesma forma, para compreender a posição da mulher teremos de ter em mente esse momento anterior a estar no mundo, antes de qualquer definição. Talvez possamos dizer: a mulher será alguma coisa, será aquilo que fizer de si mesmaNos primeiros capítulos de O Segundo Sexo, Beauvoir trata de refutar os opositores dessa não-determinação natural da mulher. São alvos: a biologia, a psicanálise, o materialismo histórico.

Com base na biologia, por exemplo, já se sustentou que a posição de submissão das mulheres na sociedade se dava como análogo das operações celulares: a crença, desfeita por Beauvoir, é de que só o espermatozóide é ativo na reprodução, sendo o óvulo passivo — o que explicaria a organização social. Outro exemplo no âmbito das ciências biológicas é o de um recorte das fêmeas encontradas no mundo animal, selecionadas de acordo com qualidades que se espera ver na fêmea humana. Beauvoir contraria essa opinião indicando uma variedade muito maior na natureza, que torna contraditória essa concepção, como afirmando as características únicas da fêmea humana). Já a psicanálise tem o mérito de destacar a importância do corpo, mas é insuficiente, por considerar a sexualidade feminina pela ótica masculina, e não em si). Segundo a filósofa francesa:
"É, portanto, à luz de um contexto ontológico, econômico, social e psicológico que teremos de esclarecer os dados da biologia. A sujeição da mulher à espécie, os limites de suas capacidades individuais são fatos de extrema importância; o corpo da mulher é um dos elementos essenciais da situação que ela ocupa nesse mundo. Mas não é ele tampouco que basta para a definir. Ele só tem realidade vivida enquanto assumido pela consciência através das ações e no seio de uma comunidade (...)". (Beauvoir, O Segundo Sexo, 1949)
O materialismo histórico, por fim, é lido através de Engels, em A História da Família. O pensador coloca como um momento necessário do progresso humano a colocação de capacidade produtiva da mulher como secundária, sem especificar porque esse processo era absolutamente necessário e quais os motivos pelos quais aconteceu.
"Para descobrir a mulher não recusaremos certas contribuições da biologia, da psicanálise, do materialismo histórico, mas consideraremos que o corpo, a vida sexual, as técnicas só existem concretamente para o homem na medida em que os apreende dentro da perspectiva global da sua existência. O valor da força muscular, do falo, da ferramenta só se poderia definir num mundo de valores: é comando pelo projeto fundamental do existente transcendendo-se para o ser". (idem)
Assim, o "tornar-se mulher" é encarado como um processo. O existente nasce corpo, nasce animal e nasce sujeito em certa economia, sociedade e período; a significação que ele receberá e a que dará a si mesmo são imposições e escolhas não-naturalizáveis.

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