quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A Origem da Superstição

Para Espinoza, na origem da superstição está um entendimento equívoco sobre as coisas do mundo. Os homens ignoram as causas e têm sua compreensão entorpecida por preconceitos – que surgem de tendências humanas comuns e de impressões recebidas da imaginação. De acordo com o filósofo, todos esses prejuízos
"(...) dependem de um só, a saber: os homens supõem comumente que todas as coisas da Natureza agem, como eles mesmos, em consideração de um fim, e até chegam a ter por certo que o próprio Deus dirige todas as coisas para determinado fim, pois dizem que Deus fez todas as coisas em consideração do homem, e que criou o homem para que este lhe prestasse culto."(Espinoza, Ética, em Os Pensadores, São Paulo: Nova Cultural, 1991, p.p. 114-5)
Em outros termos, trata-se do preconceito finalista. O apêndice da primeira parte da Ética identifica duas de suas partes fundamentais: a primeira, que os homens creiam-se dotados de livre-arbítrio, que desconheçam as causas de suas vontades; a segunda, que ajam sempre em vista de um fim e que acreditem que esse modo de agir é análogo nos demais homens, na natureza e em deus. Frente a fatos que causem perplexidade, catástrofes, grandes bonanças – o que questiona é não propriamente o por quê, mas qual o fim pelo qual se deram . A superstição parece ser a sistematização desses prejuízos; é sua forma complexa e mais resistente:
"(...) este prejuízo tornou-se em superstição e lançou profundas raízes nas mentes, dando origem a que cada um aplicasse o máximo esforço no sentido de compreender as causas finais de todas as coisas e de as explicar; mas, conquanto se esforçassem por mostrar que na Natureza nada se produz em vão (isto é, que não seja para proveito humano), parece que não deram a ver mais do que isto: a Natureza e os deuses deliram tal qual os homens." (idem, p. 116)
O medo assume aí uma função fundamental: ele é “a causa que origina, conserva e alimenta a superstição” (como diz Espinoza, no Tratado Teológico-Político, Martins Fontes, 2003). De acordo com Rogério Silva Magalhães, no artigo Imaginação e superstição no Tratado Teológico-Político (Cap. I ao XV)”:
"A insegurança perante as adversidades da vida transforma o homem em um ser vulnerável às superstições. O medo de males futuros ou de não obter os bens materiais que almeja no presente nutre a superstição, levando o homem a se tornar um fervoroso devoto, dando assim origem ao abandono da razão." (p. 102)
Tanto o temor do perigo quanto a esperança de bonança parecem ser duas faces da mesma moeda: são a expressão do desconhecimento humano sobre as condições futuras. Portanto, o medo – em sentido amplo, com suas duas formas – e a ignorância se fundem e se tornam mais complexas nesse sistema que é a superstição. Sistema, porque se põe, como a ciência, feito uma forma de explicar as coisas do mundo; e, principalmente, porque resistente, com defesas próprias contra eventos que poderiam desmistifica-la (compare com o conceito de pseudociências de Karl Popper).
"Embora a experiência de cada dia protestasse e patenteasse com exemplos sem conta que os eventos benéficos e maléficos atingiam indistintamente indivíduos devotos e ímpios, nem por isso abandonaram o inveterado prejuízo. Foi-lhes mais fácil colocar isso no número das coisas cuja utilidade desconheciam, e assim se conservarem no estado presente e nativo da ignorância, do que destruir toda essa construtura e pensar numa nova. Daqui assentarem por certo os juízos dos deuses ultrapassavam muitíssimo a capacidade humana." (Espinoza, 1991, p.116)
Frente aos desacordos da explicação supersticiosa e do mundo, ergue-se a ignorância como uma espécie de princípio epistemológico absoluto: há finalidades que não nos é possível ou cabível conhecer. A superstição está, pois, resguardada no que Espinoza chama de “asilo da ignorância”. Em suma, ela nasce de predisposições naturais do humano, do seu desconhecer e do seu medo, do seu mover-se em prol de fins e da sua esperança; funciona para confortar o homem nesse núcleo em que ele é muito suscetível ao engano. É também nesse ponto que um poder alheio sobre o indivíduo pode ser fundado: um poder teológico-político...

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