quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Na Intersecção de Problemas de Seu Tempo

"(...) A doutrina kantiana no espaço, por exemplo, longe de ser uma 'opinião' filosófica entre outras, está na intersecção de problemas levantados pela ciência de seu tempo. Se separássemos Kant desse pano de fundo científico, não somente estaríamos traindo a verdade histórica, mas também nos expondo a ver na filosofia transcendental um monumento genial, mas gratuito e paradoxal. (...)

Para Leibniz, a extensão, quer dizer, o espaço contínuo dos geômetras, é um 'fenômeno' (no sentido pejorativo de "aparência"). 'Toda a continuidade é uma coisa ideal' — e o espaço quantitativo e mensurável não passa de uma imaginação bem fundada (uma vez que a distância espacial traduz uma relação qualitativa de ordem entre as substâncias), mas, enfim e sobretudo, uma imaginação. Por que Leibniz sustenta essa tese? Tal é a questão que Kant vai colocar-se. E é por colocar-se essa questão, por tentar desentranhar o pressuposto que torna sofística a tese de Leibniz, que Kant critica Leibniz, no verdadeiro sentido da palavra criticar. É essa reflexão crítica que muitos manuais estão traindo quando nos dizem: 'Leibniz pensava que... Depois Kant pensou que...' — como se Kant tivesse contentado com opor à opinião leibniziana uma opinião kantiana: a doutrina kantiana do espaço nasce quando Kant se pergunta por que Leibniz não poderia ter razão e não porque Kant teria decidido que Leibniz estado errado.

de "O Papel do Espaço na Elaboração do Pensamento Kantiano", texto de Sobre Kant, de Gérard Lebrun.

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